Ode Marítima | Cantata Coral Sinfónica de Nuno Côrte-Real
CCB – Centro Cultural de Belém Praça do Império Lisboa,
O poema épico Ode Marítima, de Fernando Pessoa (heterónimo Álvaro de Campos), é sem dúvida um dos expoentes máximos da poesia portuguesa de todos os tempos. A ação deste longo e dramático poema, comparável aos grandes poemas de Homero, desenrola-se num cais de Lisboa, por entre navios de todos os portes que vão entrando e saindo, e com eles vai viajando a imaginação do eu-narrador, pretexto para os mais radicais pensamentos, ora de ternura sincera, amorosa, ora da mais brutal violência e imoralidade. Por entre esta quase esquizofrénica dinâmica emocional, o ritmo das palavras atinge graus de intensidade díspares, oferecendo ao leitor/ouvinte uma extrema variedade de estados de espírito, com partes lentas e outras de grande frenesim com um elevado débito de palavras, muitas vezes apenas enumerativas sem qualquer desenvolvimento dramático. A Cantata Coral Sinfónica que aqui se apresenta assenta a sua estrutura musical justamente nesta amplitude rítmica ondulante, seguindo a ordem temporal do poema, numa alternância contínua e gradativa entre blocos com música estática e outros com música vertiginosa, entre passagens de cores corais/sinfónicas suaves e ternas, com outras de grande amplitude sonora e violenta. A alusão ao passado e à infância do eu-narrador vivida nas ruas de Lisboa, com a sua intrínseca poesia popular, deu espaço à utilização da guitarra portuguesa como instrumento solista; completam os solistas da Cantata, um barítono, que encarna alguns dos sentimentos mais intensos da narração e outras singularidades do poema, como a voz do antiquíssimo pirata, Jim Barns, e um violoncelo, que funciona como a manifestação exterior da voz interior do eu-narrador, lírica, expressiva, melancólica e de grande nostalgia. Já a voz do eu-narrador é feita por um ator cujas falas estão em completa sincronização com a música, com entradas absolutamente rigorosas e ritmos de narração também controlados pelo próprio ritmo da música; dir-se-ia que este ator é, na realidade, mais um músico solista, e que o seu instrumento são as palavras do poeta, em todo o seu dinamismo e esplendor dramáticos. Completam os recursos instrumentais e vocais, dois coros, sendo um sinfónico e outro de câmara, e uma orquestra de cariz clássico, mas com algumas extensões tímbricas, nomeadamente com o uso de uma extensa panóplia de instrumentos de percussão, harpa, piano, celesta e sintetizador. A grande dimensão do texto da Ode Marítima não permite que seja apresentado na sua totalidade para efeitos musicais – resultaria, talvez e apenas, num mero acompanhamento musical como pano de fundo para a recitação do poema, que em geral dura cerca de uma hora e dez minutos a ser recitado na sua versão completa; ao invés, optou-se por uma seleção dramaticamente rigorosa e cirúrgica do texto poético, conservando o pathos e o ritmo da obra, assim como a sua estrutura, permitindo desta forma que a música seja o verdadeiro motor da narração, quer dizer, que a narração seja percebida aqui como parte integrante da música.
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro do Festival de Verão
André Baleiro, barítono
Filipe Quaresma, violoncelo
Miguel Amaral, guitarra portuguesa
Vítor D’Andrade, narrador
Paulo Lourenço, maestro convidado
Iniciativa ÉGIDE – Associação Portuguesa das Artes
Apoio Visit Portugal
Parceiros Centro Cultural de Belém, Câmara Municipal de Lisboa
Parceiros Media RTP, Antena 2
